Lucíola - José de Alencar RESUMO



Como parte do estudo sobre Romantismo no Brasil, minha turma leu no último bimestre "Lucíola", do celebrado autor romântico da prosa brasileira. O professor de Literatura apresentou o livro pra gente como um artefato significativo da cultura dos relacionamentos abusivos ao longo da história.

Paulo, um rapaz de classe baixa recém-chegado ao Rio de Janeiro, envolve-se com a melhor e mais célebre prostituta (lê-se cortesã) da corte, a enigmática Lúcia. Nos primeiros encontros dos dois, Lúcia mostra-se uma dama delicada e culta, diferentemente das outras prostitutas que Paulo julgava conhecer. Aos poucos, porém, Paulo passa a ter uma visão diferente de Lúcia, acreditando que ela é, sim, igual as outras cortesãs, quiçá pior, fazendo jus à semelhança do seu nome com o do Lúcifer.

Na segunda vez que Paulo a vê, difere-se do tratamento cortês que havia apresentado a ela até ali e a agarra. Naquele momento acontece o primeiro contato físico entre eles. Alguns dias mais tarde, Paulo e Lúcia vão até a casa de Sá, um amigo em comum dos dois, e, na presença de outros convidados, a cortesã exibe sua nudez na frente de todos. Desprezando esse comportamento, Paulo passa a rejeitar Lúcia, mesmo estando apaixonado pela mesma, e essa, graças ao seu amor, sente a necessidade de mudar de vida.

Quando o meu professor de literatura fez um breve resumo do livro na sala de aula, ele fez questão que todos os alunos acompanhassem a visão dele de que o relacionamento de Lúcia e Paulo era completamente abusivo, e que Paulo era a definição do tipo "homem das cavernas", que apenas queria a mulher se ela fizesse o que ele bem entendesse. Meu professor de literatura é um pouco revolucionário, mas ele não está completamente errado.

Antes de mais nada, eu quero deixar claro que Lúcia era uma mulher de moral própria. Na primeira cena em que os leitores são apresentados a ela, a moça está jogando dinheiro para os pobres. Mais tarde, ela se mostra caridosa com outra cortesã que a subjugou. Ao perceber a tristeza da mulher de um dos seus amantes, terminou com ele imediatamente. Nunca aceitava os presentes que seus amantes lhe davam, ficando com eles apenas para dá-los aos pobres na primeira oportunidade. Os motivos que a levaram pra essa vida de prostituta são os mais nobres possíveis. Com isso em mente, há de ser entendido que Lúcia é uma mulher que escolhe aquilo que quer fazer, e que, antes de Paulo, não conhecia o "poder transformador do amor".

É verdade que Paulo impõe seus desejos na vida de Lúcia. É verdade também que, ao ficar repulsivo com o comportamento carnal da cortesã, inflige nela uma vontade de mudar de vida. A partir desse momento, Lúcia vê Paulo como o caminho pra chegar à salvação, àquilo que é bom. Uma característica do romantismo que se reflete nesse momento é o bifrontismo: enquanto Lúcia mostrava ao mundo que era uma prostituta que apenas realizava os desejos corporais de homens ricos para ficar com seu dinheiro, no seu interior ela era apenas uma garota frágil, que escolheu esse meio de vida para ajudar sua família moribunda, e que, também, repelia todas as características que a faziam ser quem era. A cortesã tinha repulsa a Lúcia, e, com a ajuda de Paulo, conseguiu resgatar novamente Maria da Glória.

Do meio ao final do livro, Lúcia assume uma posição mais simplória: reconecta-se com sua irmã mais nova e compra uma casa simples na área rural do Rio. Nesse momento, ao voltar a suas raízes, livra-se do amor carnal que vestia Lúcia, e Maria da Glória assume a posição de amar Paulo com sua alma. Chega até a fingir uma doença para que esses contatos físicos já não mais aconteçam. 

É necessário dizer, também, que o relacionamento deles em nenhum momento é "smooth sailing". Altos e baixos acontecem, o que ajuda a dar veracidade ao romance. Paulo é um rapaz complicado, que acaba por ligar em demasiado para as opiniões alheias. É claro que, por estar em relacionamento com uma prostituta, um burburinho com seu nome iria florescer nas ruas do Rio de Janeiro. Por causa disso, e também, ao dar ouvidos a Sá e Cunha, achar que estava impedindo Lúcia de fazer aquilo que ela gostava, Paulo termina o relacionamento com a cortesã por diversas vezes. (Esse ponto demonstra, de certa forma, um pouco da dinâmica abusiva dos dois. Assim que Paulo explicava exatamente porque estava terminando, Lúcia corria para acatar seus desejos. Quando terminou com a moça por achar que estava privando-a de ter amantes, logo a mesma correu para se relacionar com algum homem. Quando novamente terminaram porque Paulo julgava que Lúcia estava deixando de ter uma vida social por sua causa, imediatamente ela foi vista novamente em festas e ao teatro.)

É inegável, porém, o amor que o casal sentia um pelo outro. Durante o livro, pequenas provações acontecem em que fica claro que um acataria exatamente o desejo do outro. Já no fim do livro, Lúcia, ao colocar em sua cabeça que não merece o amor de Paulo, insiste que ele se case com a sua irmã. (Em Lúcia havia, também, muita culpa. Fica claro como a sociedade da época havia maltratado aquela garota, tanto verbal quanto fisicamente, de certa forma que os sentimentos que ela tinha nunca eram favoráveis para si mesma. Não se achava merecedora do amor de Paulo, ou de uma vida tranquila ao lado de sua família, ou de uma casa confortável e comida na mesa.) Apesar de não sentir que podia acatar esse pedido, Paulo promete que cuidaria da menina como se ela fosse sua filha, amando-a como um pai ama sua prole.

No fim do livro, Lúcia descobre uma gravidez. Porém, com a culpa que sente por ter uma alma e corpo corrompidos, acredita que não merece ter um filho, ainda que o bebê seja fruto de seu tremendo amor por Paulo. No fim das contas, morre, grávida, completando seu arco de redenção. 

A importância desse livro no contexto histórico é, além de demonstrar a sociedade típica do Rio de Janeiro da época, também criticá-la. Lúcia tem o papel fundamental de ser a transgressora da época. Diferentemente das mulheres da época mas muito semelhante ás mulheres de José de Alencar, tem desejos e vontades e é senhora do seu próprio destino. Essa característica, porém, não impede a personagem de amar e sofrer por isso, e ter vontade de mudar para satisfazer as necessidades do seu amor. Há também uma crítica preconceituosa escondida no ato tão característico do romantismo que é a morte: a mensagem sub-entendida de que não há destino diferente para quem desvia da moral e dos bons costumes além da morte.


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